URDiDURA Abril 14, 2007
a boca é
chama
e teus seios planejam um ataque
(Mario Cezar)
a palavra aceita os vestígios do sal. como um nervo , respira. para teu olho , a claridade é tão distante
(Mario Cezar)
perseguir o poema. clarão que consente o vôo.
nascente de carnes (sob a mordaça)
(Mario Cezar)
acato teus murmúrios (viu) morena ungida no orvalho das laranjas. Leve para o fundo do mar esta penca de angústia e traga um caçuá de pérolas dignficando o poema ou quem sabe um repentino sentimento de flor
(Maria Cezar)
ergueu-se da cama como pássaro. pacífico. primeira atitude: descerrar o antigo clamor das lágrimas
(Mario Cezar)
aqui é o sertão. inteiro. brabo. as crianças ainda brincam nos terreiros. no rio daqui a água acolhe os peixes. o vento espanta o eco dos aflitos, dos deserdados. as meninas morenas. lúdicas. sorriem por inteiro. será engano? seus peitos reluzem, como flor andaluz. de longe me acenam com seu riso ardente. com seus olhos de passarinhos clandestinos. assisto a tudo e me vejo . na infãncia que remôo. os campinhos da beira do rio foram soterrados. sofro depenado , perdi a função do vôo? restam-me os pés de tamarimndas. a altivez dos muçambês. a lembrança do beijo (roubado na esquina do mercado velho). sou grato aos adventos que formaram meus ossos. me deram a combustão das coivaras. minha pele, incrustrada de piçarra lideram os sonhos de uma pátria fraterna. sorrio como maneira de resistir à avalanche do latifúndio. a vida é nesse instante
(Mario Cezar)
falo da seca, requisitando covas.
o tamanho do corpo não tem importãncia
(Mario Cezar)
(…) despertou
com flores no monturo.
o pássaro entendeu o recado
(Mario Cezar)
nos quintais de icó, a cascavel-de-quatro-ventas virava rodilha com o consentimento do veneno. guizo enfezado. bote armado. ali
, sob o mormaço, assisti a próxima insônia
como um menino calado
(Mario Cezar)
fui me construindo
por cima de pau e pedra
e
continuo com os olhos arregalados
( e com uma faca insone )
(Mario Cezar)
os caninanos. tudim atropelado. o barro do coração fica maltrapilho nas veredas onde a solidão intusmece a dor e eu fico irmanado com os mais deserdados
(Mario Cezar)
é prece.
livre porque
é parte da luz.
é bença
o perfume
não quer pressa
(Mario Cezar)
a estrada que liga o esquartejado município de jati a desconjurada icó é tão comprida como um agouro sem pátria. transporta a grande fadiga dos retirantes ou romeiros ou penitentes. se preferir, miseráveis calcinados de pus no roteiro surgem tantos casebres carcomidos de incertezas tantos meninos de costelas expostas sob as asas calorentas do sol ( até a alma fica puída)
(Mario Cezar)
e palavra a palavra
não aceito a inquisição
do veneno
roendo
o calor do abraço
(Mario Cezar)
não tenho
recursos
para me
explicar
sou errante
(como um sentimento acuado)
(Mario Cezar)
quem é esta
carne
?
brasa inteiriça, de
tão alumiosa
facho de fêmea
é floreio (no deserto da boca)
como despir a jade?
(Mario Cezar)
como descrever o ceará? . como dizer da terra luminosa?
relincho
de saudade
ergo o teu nome
de flor descamada.
tal distância.
tal desamparo
(eis uma lágrima , que mutila)
(Mario Cezar)
bendito milagre capela
romaria vela procissão
lapinha devoto sentinela
ladainha batismo oração
(Mario Cezar)
use a brasa de teus seios
- arfantes -
o fervor de tua bendita boca
- órfã -
use a carícia de teus cabelos
- sonoros -
e que sempre requisitei.
(Mario Cezar)
por longas horas permaneceu cabisbaixa. roída (para sempre?) no batente da porta sem tramela. os pensamentos eram aguaceiros barrentos. até quando? tudo era inclemente como a mentira do inverno. esperança era ave de arribação. os homens daquela vila não passavam de trastes andantes e sua buceta não era cacimba para dar guarida aos roncos de qualquer um
(Mario Cezar)
sim . o olho é um porto peregrino. uma perdição. nenhum mapa alcança . tremula feito vento que desertou.
quer uma bença. uma reza nova. quer desbastar todas as tiranias impostas pelo pai (e a pátria referendou) em nome de que?.
quer ir embora. como a água das goteiras
(Mario Cezar)
acordei
com tua voz
, ainda retendo
dores.
vamos. não esconda
a primavera.
não esconda o diamante
que me conduz.
(Mario Cezar)
tinha um sorriso
fugidio
. diluído na tarde
de soluços.
como escapar da
ressureição dos
punhais ?
(Mario Cezar)
sim anaLuísa: tem uma seleção de dores. e todos os estilhaços atados a saliva. sim ana; tem o desencanto que o asfalto crava (sem pedir perdão) é bem verdade. tem também a bença do arco-íris, o estalo da longínqua estrela varando teu coração machucado. tem a essência dos córregos a palpitar em teu peito de fêmea-alada. sim anaLuísa; tem tantos sabores impregnando a curvatura do teu olho (que em mim é lonjura) ao dizer : somos da mesma sílaba, é porque tem o verde sonho das auroras, tem o frescor do barro (e sua distância matinal) tem o febril encontro das formigas , com seus mapas de terra luminosa. sim anaLuísa. perceber o rubi que gravita , mesmo entre calos e machucações. perceber o fomento da primavera ou nossa cegueira está posta , de modo que não vemos o cheiro da madeira. sim anaLuísa, é bem verdade, não é fácil perceber a atitude das estrelas . somos o peso do asfalto? somos parte da terra mal vista? cadê nosso riso? o diagnóstico de nossa infância (encontrávamos todos os pássaros) por que perdemos a cantoria dos rios? onde foi parar o estalo dos jasmins (que vestiam nossas línguas) olhe (cabra) tal escrito foi sob a tutela de um chá AYUVéDICO. essências aladas. fiquei espiando os modos como a cítara de ravi shankar avoam e luminam-me de citações ( qualquer dia mandarei à tua casa um pote dessas ervas ) e direi que estrelas te cruzam , e direi que teu verso tem a fluorescência do beijo escondido.
(Mario Cezar)
parte final
(…) quando o ônibus partiu mastiguei um longo vento amargo diante das lágrimas de mãe que lentamente se esfacelavam no cimento sujo da rodoviária
(Mario Cezar)
parte quatro
(…) duce e dalva apareceram vestidas de carmin , vistoso na beira do coração e de maneira acolhedora colocaram , sobre as alpercatas gastas, uma pequena flor de cansanção para eu suportar a vertigem da viagem até são paulo
(Mario Cezar)
parte três
(…) no dia quinze de março do ano noventa sai de casa com uma mala de pregos retorcidos. contendo quatro calças remendadas, um livro de dostoievski e uma banda de rapadura preta pisada com farinha caruçuda
(Mario Cezar)
parte dois
(…) o sonho das pétalas virava molambo na mão dos opressores. queria partir. estraçalhar a indigestão das lágrimas. receber o assopro de plantações distantes. na pequena icó(ce), não cabia o amanhecido perfume das cacimbas. o vôo da rolinha fogopagô, a infância das hortelãs, o sereno da noite.
(Mario Cezar)
parte um
meus olhos queriam cutucar os confins do mundo. não tinha cabimento continuar esfolando os pés no beco do urso. o coração desbotado pedia um rosário de esperanças para banir aquela infâmia. nos ricos sobrados da rua central , meu aboio era esfaqueado a olho nu.
(Mario Cezar)
teus olhos são
desse tempo
tem brilhos
e entra em acordo com a salmoura
( mais cruel )
(Mario Cezar)
. o amor
é um
desencontro
(é mordaça. é um sem
fim)
vestido
feita as avessas.
desproteção
(para um iniciante, como
eu)
(Mario Cezar)
(…) urge
.devasta meus territórios
. planta as
sílabas do precipício
(Mario Cezar)
não mostre o que é seu. é seu código. sua artéria de ouro
seu barco
( onde as borboletas cavalgam sem ânsia)
seu mapa tem o hálito da terra distante.
são
vestes
da aurora
(Mario Cezar)
leiluka:
quanto ao meu poema
(apenas âncora)
inútil como uma carta extraviada
(Mario Cezar)
queria partir. estraçalhar a indigestão das lágrimas
receber o assopro
de
plantações distantes. quando o ônibus partiu
mastiguei um longo vento amargo
diante das lágrimas de mãe
que lentamente se esfacelavam no cimento
sujo da rodoviária
(Mario Cezar)
quando digo cama
entenda
priquito.
em relincho.
em fôlego.
em fenda
apartada no pau
(Mario Cezar)
… quando o café era socado no pilão de madeira cicatrizada( às três da tarde), o magneto da terra eriçava as miudezas do meu corpo de menino. vó dizia que o tremor da pele era o ronco da caipora protegendo o nascimento do sangue
(Mario Cezar)
robaro o mar. o amor. robaro o hálito da terra. robaro os atalhos. as encruzilhadas. os arcanjos. robaro as setes noites. noites e todos os candelabros. robaro o frescor das hortelãs. robaro aquele frasco de cinzas dormidas. robaro a melodia do gozo. ainda tenho a faca. serei trincheira. guardo estrelas antigas. tudo alumiado. meu açoite ninguém roba. é trigo alado.
(Mario Cezar)
somos da mesma
sílaba.
carne a carne
ofício de água esquecida
(Mario Cezar)
envio este poema como quem
revela a primeira lição de
liberdade
(Mario Cezar)
cresci nos quintais que sempre deram guarida ao pó das coisas antigas
, como um pavio queimado ou um frasco de cinzas dormidas.
(Mario Cezar)
o olho não quer este naufrágio. este escombro. já disse: tua retina não é entulho ou raiz de escombros. não. não deixe qualquer um fuçar. as retinas são os primórdios da primavera contém toda história do barro. todos os sonhos estão dentro. nuvens de azulejos e talha pássaros e fascina. vamos. o olhar é só teu e está pronto. descubra-o. veio nos versos que recebi (de ti) e me explodiu antes da tempestade . vamos . teu idioma tem fagulhas , só encontradas nos girassois
(Mario Cezar)
última parte
naquele momento um engasgo de solidão, um ronco de pus, um eco de vômitos, um cabresto soluçante. tudo tudo tudo refugiou-se nos frágeis braços de dona Sinhora, que aos 84 anos continua recolhendo
as piores
rachaduras da vida
(Mario Cezar)
terceira parte
e na casa de dona Sinhora só uma porção de água salinizada plantou-se na fundura da dor o sangue perdera a mais remota ilusão os olhos eram restos de molambos esquecidos partituras queimadas. no piso de terra vermelha fica geraldo . tangido como se fosse uma lasca de lenha ou mais precisamente um graveto inútil
(Mario Cezar)
segunda parte
no terreiro de barro enrugado as folhas do mandacaru se amontoam nas frestas da cerca encaliçada. no céu acinzentado, o derradeiro anuncio de poucas nuvens. tudo é fotografia de outra braba estiagem. enquanto um besouro sobrevoa um tamboreto , feito com couro de cabra, um homem (nome endurecido) se aproxima do batente de vara . nem sequer cumprimenta dona Sinhora. rude como uma chibanca invocada rebola geraldo. um morto recente (quando chegou os ossos estavam decapitados)
(Mario Cezar)
primeira parte
na vila guassussê, distrito de orós ,na longínqua província do Siará, o pôr do sol surge inquietante. o calendário crava vinte de dezembro.
na rústica casa de dona Sinhora o escuro adentra a água do velho pote, que recostado na soleira da porta é o único tesouro da família.
dependurada num tronco de angico , uma enxada de cabo desgastado por vinte e tantos anos de seca , range parecendo um latido.
no teto, a cumbuca despedaçada se balança de acordo com a amargura do vento
(Mario Cezar)
a saudade
, eita elemento bruto ,
transplanta para as retinas
uma coroa
de desgosto
(Mario Cezar)
de onde vinha aqule fogo amestrado? aquele latido incandescente? olhos de cetins sutis. olhos pairando sobre meus escombros. era carnificina? era estrela a desmontar meu peito. galagando meus atalhos indecisos. sim. o que era aquilo? vou ter que me arrastar sobre aquela sobra. sobre aquele galope de faca rasteira. eu quero este aboio. este mel pagã. ou será veneno cru. até quando vou pernoitar com este nome , este novelo de sal?
(Mario Cezar)
entrego
um repertório
de carícias.
.
ao entrar no
mar
lavo a poeira do exílio
(Mario Cezar)
teu sexo
é estrada alumiada.
inventário para bocas tristes.
teu sexo
reacende pétalas
perdidas.
é precipício
, dentro dos meus ossos.
(Mario Cezar)
naquela estrada o rosto é uma caliça. o sangue se desordena em contato com o quebranto. qualquer coração mingua, de tanto aperreio. tudo se retalha, como molambo. esperança
é ave
de arribação.
(Mário Cézar)
não. não migre.
aqui
o mar abençoa a carne
.
o beijo não teme
a
verdade
(Mário Cézar)