rasuras

9 meses de duos poéticos

Arquivos da Categoria: ana peluso

foram as catarses ditas infiéis que fizeram o inferno do céu ao meio-dia um tombadilho a queda uma alforria de ventos soprando a vida um segundo para a frente quem teme o corpo livre no espaço? tudo já foi dito ou há esperança? o amanhã é laranja ou acidentado? quem sabe mais do que quem [...]

falo como um como ele como ela como todos e nenhum (Ana Peluso)

a vida é tanto precária ante o raiar do sol (Ana Peluso)

de(s)compromisso

    aceito. não decido se parto ou se fico   (Ana Peluso)  

A NÁUSEA

a flor que nasceu feia mas flor furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio   a flor se perpetuou   proliferou-se, pálida em maldição   mora no mundo e nas casas nas coisas e nas pessoas   esfumaça-se no éter perpassa a argamassa, a carne, ossos o coração   mente!   não [...]

mergulhando no romance

é como cobra-viva o sentimento de não pertencer à palavra estar aquém dela e ao mesmo tempo ser tão comum tão comum que a dor correu o corpo todo no momento certo (Ana Peluso)

a felicidade

estava ali, e não podia ser tocada estreita, à mão pequena, pouca, rara (Ana Peluso)

a limpo

você, vadia expôs nossa vida no varal pendurou as suas renúncias na forma das vestes suas sujas de sangue e de sêmem e agora pergunta a todos porquê eu olho para cima quando passo na sua frente (Ana Peluso)

desfecho

o silêncio diz nada ao tímpano e o tímpano nada no silêncio (Ana Peluso)

reinos da incerteza

o silêncio vela a linguagem das figuras a dúvida absoluta e a lembrança do seu rosto                que eu finjo ver numa taça de Dry Martini                                         imaginário (Ana Peluso)

eco

nenhum livro casco móvel e todas as árvores do mundo (Ana Peluso)

palavra

linha artífice do coração (Ana Peluso)

3 motivos

quatro cantos cinco sentidos todas as intenções (Ana Peluso)

MALDIÇÃO

maravilhosa, que o quadro contrastante feito de luz e sombra assombra a si mesma que dizer eu te amo à pessoa amada, ou não, não amarga esse vulto à sua volta (Ana Peluso)

ano novo

ovo clara, gema e cuia bater, bater, bater até não doer mais (Ana Peluso)

de novo

sou um esperma reincidente entro e saio, entro e saio novamente (Ana Peluso)

de(s) engasgos

arrancar o asfalto; mais fundo    arrancar as pedras; mais fundo    arrancar a terra; mais fundo    arrancar o chão       encontrar, enfim, a leveza do caminho   (Ana Peluso)

Memorando de saudade

tortura a dor satura a cor inaugura o amor           e vê se pára com essa           frescura           de sumir por aí           como se fosse só (Ana Peluso)

sobre ela

Presa. Estava presa como uma idéia à uma estrutura de um romance. Gélida, como o retrato de Dorian Gray por trás daquela camuflagem negra. Atos criminosos são sempre, mesmo, muito comestíveis. E do ponto de vista da alimentação, estar presa é algo bastante inusitado, já que pouco se alimenta aquele que está verdadeiramente preso.  E por estar [...]

reles mortal

duplo. triplo. e não alcança o pico. (Ana Peluso)

notícias de mabóia

alta magra murrinhenta sulamericana dá à luz a calmaria (Ana Peluso, da série inacabada “Poemas de Dicionário”, * 2003 )

brincando de electra,

e aficcionada, morde   a mãe   que   morde o pai (Ana Peluso)

encontro

                   asteróides                    corpos nus                    nossos                    olhares               se chocam                    ateus (Ana Peluso)

nota de folhetim

os olhos dele os olhos dele pareciam dois gritos os olhos dele pareciam dois gritos na noite os olhos dele pareciam dois gritos na noite de lua cheia e ela sereia no dia da santa e ela matreira de olho na santa e ela cabreira sem o aval da santa ignora (Ana Peluso)

vício

eletrifica. fulmina a sanidade travestida. como quem desdobra guardanapos sem ter mãos. (Ana Peluso)

sinais

carta de bordo. diário. taquigrafia. telégrafo. aviso. reclame. notícia. espístola. mensagem. sinaleiros no meio do mar. e UM sem Número de SENTIDOs todoS case sensitiveS. (Ana Peluso)

no parque

a casa de espelhos assovia    vem    vem (Ana Peluso)

do mar

     era o mar o dela      era a mar a dela     era amaro dela o                        mar               era assim         ela era assim    e dela amaro era o mar amar o dela e amar o dela mar (Ana Peluso)

ponto inespecífico

você nem marcou encontro e eu cheguei tarde demais? (Ana Peluso)

o amor era

três pernas de aço entrelaçadas em três braços dois pescoços embaraços     que um pássaro-peixe laçou em forma de coração sobre um leito de madeira para sempre (Ana Peluso)

no ar

os olhos, como pássaros pousavam de galho em galho (Ana Peluso)

visão

vê-se uma gleba em levante, transeuntes noturnos obscuros buracos negros siderais; vê-se o céu sem futuro, em silêncio mútuo; vê-se: animal condena se vê: uma cadela no cio. um gato no cio. um homem no cio, o mundo no cio o cio todo o cio; vê-se um bando de pássaros também; vôos além, mais. (Ana [...]

pequeno drummondiano

desapega, José.                       solta a pedra                       salta a pedra                       sai da pedra vira ar (Ana Peluso)

pena, ela…

sua personalidade era austera meio disfarce de boa moça e num rasgo do canto da boca uma falsa alegria existia ela não era quem dera não a ti nem a si conhecia (Ana Peluso)

ESCREVER

delinear palavras o que alguns tomam por tolice outros por déjà vu (divagar) lento é o caminho até elas sulfurosas as umidades que exalam (e todos os atributos que se possa lhes dar) mesmo se abandonadas no caminho lembrarem velhos manuscritos nunca lidos ou se todo o oposto acontecer (com a delicadeza da explosão) alçar [...]

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