rasuras

9 meses de duos poéticos

Abril 26, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 3:36 am

foram as catarses ditas infiéis
que fizeram o inferno do céu ao meio-dia
um tombadilho a queda uma alforria
de ventos soprando a vida um segundo
para a frente

quem teme o corpo livre no espaço?
tudo já foi dito ou há esperança?
o amanhã é laranja ou acidentado?
quem sabe mais do que quem sobre tudo?

em ângulos tímidos
vãos surgem através das portas

deixam ver a poeira do sempre
e nada do sublime que não se previa

a fé que no escuro o silêncio faça eco

a descrença na infidelidade
como única virtude

desse momento em diante
foram as catarses que escreveram um futuro

 (Ana Peluso)

 

Abril 22, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 5:25 pm

falo

como um

como ele

como ela

como todos

e nenhum

(Ana Peluso)

 

Abril 19, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 4:32 am

a vida é tanto precária ante o raiar do sol

(Ana Peluso)

 

de(s)compromisso Abril 17, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 6:03 pm

 

 

aceito.
não decido
se parto
ou se fico

 

(Ana Peluso)

 

 

A NÁUSEA Abril 1, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 3:53 am

a flor que nasceu feia
mas flor
furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio
 
a flor se perpetuou
 
proliferou-se, pálida
em maldição
 
mora no mundo e nas casas
nas coisas e nas pessoas
 
esfumaça-se no éter
perpassa a argamassa, a carne, ossos
o coração
 
mente!
 
não ilude nem a um santo
 
e sem alarde
pétala ante pétala
faz-se objeto-
testemunho anarquista
do ódio de todos

 

mergulhando no romance Março 30, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 8:47 am

é como cobra-viva

o sentimento de não pertencer à palavra

estar aquém dela

e ao mesmo tempo ser tão comum

tão comum

que a dor correu o corpo todo

no momento certo

(Ana Peluso)

 

a felicidade Março 29, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 8:43 am

estava ali, e não podia ser tocada

estreita, à mão

pequena, pouca, rara

(Ana Peluso)

 

a limpo Março 26, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 8:35 am

você, vadia
expôs nossa vida no varal
pendurou as suas renúncias
na forma das vestes suas
sujas de sangue e de sêmem

e agora pergunta a todos
porquê eu olho para cima
quando passo na sua frente

(Ana Peluso)

 

desfecho Março 11, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 6:49 pm

o silêncio diz nada ao tímpano

e o tímpano nada no silêncio

(Ana Peluso)

 

reinos da incerteza Março 6, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 1:16 am

o silêncio vela a linguagem das figuras
a dúvida absoluta
e a lembrança do seu rosto                que eu finjo ver
numa taça de Dry Martini
                                        imaginário

(Ana Peluso)

 

eco Março 4, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 5:49 pm

nenhum livro casco móvel

e todas as árvores do mundo

(Ana Peluso)

 

palavra Fevereiro 23, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 10:46 pm

linha artífice

do coração

(Ana Peluso)

 

3 motivos Fevereiro 8, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 3:02 pm

quatro cantos

cinco sentidos

todas as intenções

(Ana Peluso)

 

MALDIÇÃO Janeiro 7, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 6:01 pm

maravilhosa,

    que o quadro contrastante feito de luz e sombra assombra a si mesma
    que dizer eu te amo à pessoa amada, ou não, não amarga esse vulto à sua volta

(Ana Peluso)

 

ano novo Janeiro 2, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 2:01 pm

ovo
clara, gema e cuia
bater, bater, bater
até não doer mais

(Ana Peluso)

 

de novo Janeiro 2, 2007

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 1:45 pm

sou um esperma reincidente
entro e saio, entro
e saio novamente

(Ana Peluso)

 

de(s) engasgos Dezembro 15, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 5:36 pm

arrancar o asfalto;
mais fundo

  

arrancar as pedras;
mais fundo

  

arrancar a terra;
mais fundo

  

arrancar o chão

  

  

encontrar, enfim,
a leveza do caminho

 

(Ana Peluso)

 

Memorando de saudade Dezembro 8, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 10:32 pm

tortura
a
dor

satura
a
cor

inaugura
o
amor

          e vê se pára com essa
          frescura
          de sumir por aí
          como se fosse só

(Ana Peluso)

 

sobre ela Dezembro 5, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 6:23 pm

Presa. Estava presa como uma idéia à uma estrutura de um romance. Gélida, como o retrato de Dorian Gray por trás daquela camuflagem negra. Atos criminosos são sempre, mesmo, muito comestíveis. E do ponto de vista da alimentação, estar presa é algo bastante inusitado, já que pouco se alimenta aquele que está verdadeiramente preso.  E por estar irremediavelmente presa, via-se no passar das páginas, assim como quem olha o nada, já que, em particular, nada diziam. Queria fatos sobre si… Por quê estava ali, e por quanto tempo?

Já que escapar era impossível, cogitava condicionais.

Mas os anjos não falam mais com os homens. Nem as suas asas ruflam ao lado dos prédios. Eles não se afeiçoam à aglomeração da massa não espiritualizada. O concreto distrai - à vista do tempo que passa implacável - e quando se olha tudo por uma janela com grades, tudo isso que está fora, se torna imediatamente comestível.

Isso era o suficiente para ela saber que, presa, gélida, inserida na estrutura de um romance como um átomo de cimento está inserido num bloco; isso, da compressão sobre sua pessoa, já era o suficiente para saber-se faminta.

(Ana Peluso)

 

reles mortal Novembro 21, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 6:33 pm

duplo.
triplo.
e
não alcança
o pico.

(Ana Peluso)

 

notícias de mabóia Novembro 17, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 4:37 pm

alta

magra

murrinhenta

sulamericana

dá à luz

a calmaria

(Ana Peluso,
da série inacabada “Poemas de Dicionário”,
* 2003 )

 

brincando de electra, Novembro 9, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 11:59 pm

e aficcionada, morde

  a mãe
  que
  morde

o pai

(Ana Peluso)

 

encontro Outubro 29, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 9:17 am

                   asteróides
                   corpos nus
                   nossos
                   olhares
              se chocam
                   ateus

(Ana Peluso)

 

nota de folhetim Outubro 15, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 2:39 am

os olhos dele
os olhos dele pareciam dois gritos
os olhos dele pareciam dois gritos na noite
os olhos dele pareciam dois gritos na noite de lua cheia

e ela sereia no dia da santa
e ela matreira de olho na santa
e ela cabreira sem o aval da santa
ignora

(Ana Peluso)

 

vício Outubro 12, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 9:02 pm

eletrifica.
fulmina a sanidade travestida.
como quem desdobra guardanapos
sem ter mãos.

(Ana Peluso)

 

sinais Setembro 23, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 5:39 pm

carta de bordo.
diário. taquigrafia. telégrafo.
aviso. reclame. notícia.
espístola. mensagem.
sinaleiros no meio do mar.
e UM sem Número de SENTIDOs
todoS case sensitiveS.

(Ana Peluso)

 

no parque Setembro 22, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 2:08 am

a casa
de
espelhos
assovia
   vem
   vem

(Ana Peluso)

 

do mar Setembro 21, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 4:16 pm

     era o mar o dela
     era a mar a dela
    era amaro dela o
                       mar
              era assim
        ela era assim

   e dela amaro era
o mar amar o dela
e amar o dela mar

(Ana Peluso)

 

ponto inespecífico Setembro 20, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 4:36 am

você nem marcou
encontro
e eu cheguei
tarde demais?

(Ana Peluso)

 

o amor era Setembro 19, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 1:43 am

três pernas de aço
entrelaçadas em três braços
dois pescoços
embaraços
    que um pássaro-peixe laçou
em forma de coração
sobre um leito de madeira
para sempre

(Ana Peluso)

 

no ar Setembro 19, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 12:44 am

os olhos, como pássaros

pousavam de

galho

em galho

(Ana Peluso)

 

visão Setembro 12, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 4:48 am

vê-se uma gleba em levante,

transeuntes noturnos

obscuros

buracos negros siderais;

vê-se o céu sem futuro,

em silêncio mútuo;

vê-se: animal

condena

se vê:

uma cadela no cio. um gato no cio. um homem no cio,

o mundo no cio

o cio

todo o cio;

vê-se um bando de pássaros também;

vôos além, mais.

(Ana Peluso)

 

pequeno drummondiano Setembro 1, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 8:10 pm

desapega, José.
                      solta a pedra
                      salta a pedra
                      sai da pedra
vira ar

(Ana Peluso)

 

pena, ela… Agosto 30, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 9:09 pm

sua personalidade era austera

meio disfarce de boa moça

e num rasgo do canto da boca

uma falsa alegria existia

ela não era quem dera

não a ti nem a si

conhecia

(Ana Peluso)

 

ESCREVER Agosto 29, 2006

Arquivado em: ana peluso — ana peluso @ 4:30 pm

delinear palavras

o que alguns tomam por tolice

outros por déjà vu

(divagar)

lento é o caminho até elas

sulfurosas as umidades que exalam

(e todos os atributos que se possa lhes dar)

mesmo se abandonadas no caminho

lembrarem velhos manuscritos

nunca lidos

ou se todo o oposto acontecer

(com a delicadeza da explosão)

alçar

(Ana Peluso)