Presa. Estava presa como uma idéia à uma estrutura de um romance. Gélida, como o retrato de Dorian Gray por trás daquela camuflagem negra. Atos criminosos são sempre, mesmo, muito comestíveis. E do ponto de vista da alimentação, estar presa é algo bastante inusitado, já que pouco se alimenta aquele que está verdadeiramente preso. E por estar irremediavelmente presa, via-se no passar das páginas, assim como quem olha o nada, já que, em particular, nada diziam. Queria fatos sobre si… Por quê estava ali, e por quanto tempo?
Já que escapar era impossível, cogitava condicionais.
Mas os anjos não falam mais com os homens. Nem as suas asas ruflam ao lado dos prédios. Eles não se afeiçoam à aglomeração da massa não espiritualizada. O concreto distrai - à vista do tempo que passa implacável - e quando se olha tudo por uma janela com grades, tudo isso que está fora, se torna imediatamente comestível.
Isso era o suficiente para ela saber que, presa, gélida, inserida na estrutura de um romance como um átomo de cimento está inserido num bloco; isso, da compressão sobre sua pessoa, já era o suficiente para saber-se faminta.
(Ana Peluso)
Anjos abrem brechas nas paredes de concreto… Anjas derretem o gelo em almas tristes… Anjos desenham pontes sobre os abismos urbanos…
Abraços!
Tô achando, Ana, que tem um romance, ou um conto, ou uma novela virtual, escrita a 4 mãos, nascendo aqui, de entremeio a essas belas rasuras suas e as de Mario. Tem, não tem? E, se não tiver, bem que poderia ter. Seria ótimo. Esse começo aí promete.(Risos)